Accepted paper:

Pedro Costa e a terra ardida - Quatro filmes crioulos para fixar cinzas que não assentam

Author:

Mathilde Neves (FLUP)

Paper short abstract:

Abordagem a quatro filmes feitos a partir da terra misturada de Cabo Verde e Portugal. Pedro Costa foi à procura de fantasmas na ilha de Santiago e encontrou-os no bairro das Fontaínhas. Este cinema é um país estranho, onde proximidade e distância cabem no mesmo plano.

Paper long abstract:

Pedro Costa (Lisboa, 1959) tem já uma extensa obra construída a partir da terra misturada de Cabo Verde e Portugal. Tal como Jacques Lemière o escreve: "A obra do realizador Pedro Costa, entre outras originalidades e particularidades, apresenta, no cinema português contemporâneo, a absoluta singularidade de operar um percurso entre Portugal e o seu ex-Império, neste caso entre Portugal e Cabo Verde: um percurso circulante, à vez, de Portugal para Cabo Verde e depois de Cabo Verde para Portugal." O seu trabalho baseou-se nessa circulação, levando a um profundo questionamento de si, do país em que habita, do cinema, que nele dá abrigo/luz a uma comunidade que a contemporaneidade remeteu para o subúrbio.

Em Casa de lava (1994), Cabo Verde e cabo verdianos surgem-nos enquanto espectros de um mundo desolado, que ambiciona "morrer em Sacavém". Ossos (1997) mostra o Cabo Verde que resiste nas imediações de Lisboa. N'O quarto da Vanda (2000) vamos assistindo à demolição do bairro das Fontaínhas, concentrado em restos de gente que responde pela consumição. Em Juventude em marcha (2006), entendemos que próximo e distante, vida e morte, totalidade e ruína são categorias deslizantes, impróprias para o crioulo que os filmes de Costa captam e refractam.

Cinema materialista e despojado, que apresenta os espoliados com uma beleza assombrosa, que nos obriga a permanecer na ombreira de um mundo arruinado e em permanente reapropriação, sendo que aí, nessa geografia íntima, os restos e os cruzamentos são decisivos e é fundamental ir no seu encalço.

panel P07
Proximidade e distância